Hey Macarena

Estou do lado dos que querem um mundo melhor, para minha filha, para mim mesmo, para vocês, mas é preciso ter cuidado. Uma mudança no poder não significa cura. O poder não é uma cura. O grande esforço de suas mentes não deve ser como destruir um governo, mas sim como criar um governo melhor. Não sejam mais uma vez enganados e aprisionados. E se vocês vencerem, tenham cuidado com um governo que seja mais Autoritário e que acabe por deixá-los numa situação mais opressiva do que a anterior. Não sou exatamente um patriota, mas apesar de todas as enormes e fodidas injustiças ainda se pode expressar uma opinião e protestar e agir num amplo espectro social. Digam-me, poderia eu escrever um texto contra o governo depois que vocês assumirem? Poderia ficar nas ruas e parques e dizer a vocês o que penso? Espero que sim. Mas sejam cuidadosos se for para perdermos esse direito em nome da justiça. Peço que me apresentem o seu programa para que possa escolher entre o de vocês e o deles, entre a Revolução e o governo existente. Será que não me colocarão para cortar cana? Isto me deixaria bastante chateado. Por acaso construirão novas fábricas? Passei minha vida inteira fugindo de fábricas. Teriam meu escritos, minha música, minhas pinturas que levar em conta o bem estar do estado? Deixariam que eu ficasse largado em parques e cubículos bebendo vinho, sonhando, me sentindo bem e tranquilo? Deixe-me saber o que têm reservado pra mim antes que eu saia por ai queimando bancos. Preciso de mais do que colares hippies, uma barba, um turbante indiano, maconha legalizada. Qual é o seu programa? Estou cansado de todos os mortos. Não vamos desperdiça-los mais uma vez. Se é para enfrentar a baioneta das tropas estaduais, digam-me o que vou ganhar para isso.

Livro: Pedaços de um caderno manchado de vinho - Charles Bukowsi

Charles Bukowski

“Quando ando no meio de outras pessoas não me sinto bem. O que elas falam e o entusiasmo que demonstram nada têm a ver comigo. O mais curioso é que justamente quando estou na companhia delas é que me sinto mais forte. Me vem a ideia seguinte: se podem existir só com esses fragmentos de coisas, então eu também posso. Mas é quando estou sozinho e todas as comparações se reduzem a mim mesmo contra a história, contra o meu fim, contra as paredes, contra a minha própria respiração, que começam a ocorrer coisas estranhas. Sou um sujeito evidentemente fraco. Experimentei ler a bíblia, os filósofos, os poetas, mas para mim, de certo ponto, erraram de alvo. Ficam falando de uma coisa completamente diversa. Por isso há muito tempo desisti de ler. Encontro um pouco de conforto na bebida, no jogo e no sexo, e dessa forma me assemelho bastante a qualquer membro da comunidade, da cidade e do país; a única diferença é que não tenho o menor interesse em “vencer”, constituir família, ter casa própria, um emprego respeitável etc e tal. Portanto, lá estava eu: sem ter nada de intelectual, de artista; nem tampouco as raízes redentoras do homem comum. Me sentia dependurado com uma espécie de rótulo indefinido e muito receio, sim, que isso marcasse o início da loucura.

Rage Against the Machine XX

Rage Against the Machine XX